Colunistas - Cezar Motta

Última Coluna (03/01/2019)

Foram quase 20 anos ininterruptos, graças à gentileza e à amizade de Cláudio Fernandes e Júnior Cysne. Desta janela, acompanhei feliz a reinvenção do Fluminense, pelo engajamento da torcida através da força nascente da Internet, pelo patrocínio da Unimed e a presença de Celso Barros.

Graças também à competência e ao prestígio de Carlos Alberto Parreira e pelo ótimo trabalho de David Fischel. Nomes históricos.

Esta Sempreflu, desde o começo, foi um catalizador decisivo em todo o processo de renascimento tricolor. Foi aqui que surgiram todos os grupos políticos que, infelizmente, se perderam pelo caminho. Grandes amizades foram forjadas. Mas o tempo passou e o Fluminense deu xabu.

O que vinha sendo redesenhado foi rasgado e destruído a partir de Roberto Horcades, que não pagou impostos e nos jogou no limbo tributário, passando pelo desastre Peter Siemsen e pelo apocalipse Pedro Abad. As vaidades no Flu vicejaram em flor, e com elas a incompetência e a corrupção lato sensu.

O Fluminense viveu mais ou menos 15 anos como um parasita, um apêndice da Unimed. Quando a festa acabou, caímos em uma dura realidade, porque não temos gente capaz de gerir o clube, não temos qualquer simpatia da mídia e nem qualquer apoio institucional da fauna e da flora em torno do futebol brasileiro. Ao contrário.

A nossa realidade é ainda mais dura porque o Estado do Rio vive uma profunda decadência desde a fusão do Estado do Rio com a Guanabara, em 1975. Não nos recuperamos da perda da Capital Federal. O fim da era de crescimento econômico brasileiro, em 1973, também foi decisiva.

E mais: o Rio de Janeiro tem quatro clubes grandes em meio à decadência econômica e cultural. É difícil. Nem o Maracanã sobrevive. Quem acompanha o futebol mineiro e o gaúcho sabe que dois grandes clubes dividem cada um dos estados, com o suporte de culturas regionais fortíssimas. Nós temos que dividir por quatro.

Quando Felício Brandi e Carmine Furletti, grandes empresários, assumiram o Cruzeiro na metade dos anos 60, o gigante desabrochou nacionalmente.

Com dinheiro do próprio bolso, Felício Brandi construiu a Toca da Raposa I, o primeiro CT de alto nível do país. E formou o timaço de Tostão, Raul, Dirceu Lopes, Zé Carlos, que entrou em cena aplicando uma goleada no Santos de Pelé e ganhando em 1966 a Taça Brasil ? que hoje é classificada como Campeonato Brasileiro.

Espertos, Brandi e Furletti, presidente e vice de futebol, venderam Tostão para o Vasco por uma fortuna, quando o craque não tinha mais condições de jogar, por causa de um descolamento de retina, provocado por uma rebatida de bola do zagueiro Ditão, do Curintcha. Dinheiro em caixa.

O Atlético tinha apoio de empresários mineiros, do Banco de Minas Gerais (BMG), de empreiteiras locais, e de uma grande e fiel torcida, maior do que a do Cruzeiro em BH, embora talvez inferior no restante do estado.

No Rio Grande do Sul, Grêmio e Inter sempre dividiram o grande público e o empresariado gaúcho. Sempre tiveram seus estádios, e sempre viveram da emulação. O que um construía ou conquistava, o outro tinha que suplantar. Alternaram grandes administrações com outras ruins, com prevalência de bons e apaixonados gestores.

Em São Paulo, é uma covardia. São três grandes na cidade mais importante do país, sendo que o São Paulo Futebol Clube, que era quase inexpressivo, teve um governador de Estado, Laudo Natel, que era também presidente do clube e foi fundamental na construção do Morumbi.

Com grandes empresários e milionários como dirigentes, o clube cresceu e seguiu rumo oposto ao do Fluminense: agigantou-se, pôs na cabeça o objetivo de vencer a Libertadores (desde o começo dos anos 70) e ganhar o mundo. Sempre foi dirigido por gente muito rica e capaz, e chegou ao apogeu no começo dos anos 90 ? um gigante.

Parmêra e Curintcha viveram grandes crises até os anos 90, mas dividiam o público torcedor paulista, sua forte mídia... e o dinheiro. Bastou organizar um pouco a bagunça e os dois decolaram. O Santos era o único clube de uma grande cidade, e tirou o bilhete premiado da loteria ao descobrir em Bauru a joia mais preciosa do futebol brasileiro.

No Rio de Janeiro, a decadência da cidade arrastou junto o futebol, embora sempre soubéssemos do potencial do Flamengo.

O Fluminense parou no tempo. Em 1975, sofreu talvez o primeiro caso no Brasil de jogador cobrando na justiça salários atrasados, o goleiro Félix. Os tricolores mais jovens talvez não saibam, mas nossos dirigentes, em sua maioria, sempre foram muito ruins a partir da segunda metade da década de 60.

Tivemos o brilho passageiro de Francisco Horta e Manoel Schwartz, divididos por uma década, mas nunca sequer tentaram lançar bases para o futuro do clube, um estádio, um CT, um projeto mais grandioso, nacional, vencer uma Libertadores. Nada.

No segundo escalão, tínhamos eficiência, com José de Almeida, que era funcionário assalariado, Dilson Guedes, João Boueri, Newton Graúna, José Carlos Vilela. Até Alcides Antunes, importantíssimo no título carioca de 1995, segundo Joel Santana, e no Brasileiro de 2010, segundo Muricy Ramalho. Mas não eram líderes para mobilizar uma nação.

Agora, amigos, chegamos ao inferno. Nada existiu semelhante a Pedro Abad, o destruidor. Para ele, não importa que esteja matando de vez o clube. Quer sair ?por cima?. Espero que pague bem caro por isso.

Abad me fez finalmente entender a frase de Mário Lago quando fomos rebaixados três vezes seguidas nos anos 90: ?O Fluminense não está mais nas minhas cogitações existenciais?.

E o canalha culpa a torcida, que segundo ele ?não conhece a história do clube?. Mente quase que instintivamente, e vai deixar um clube arrasado. Afastou grandes tricolores e, na frase brilhante de Heitor d?Alincourt, ?é incapaz de liderar um sonho?. Um abúlico, um miasma.

Bom, amigos, tudo isso para me despedir depois de, sei lá, mais de 15 anos ocupando este espaço. Até mesmo os meus queridos amigos webmasters parecem desmotivados e deixaram o barco correr. Realmente, é difícil aguentar. Desde 2004 nos habituamos a trazer a Brasília os candidatos a presidente para conversar com os tricolores.

Na última eleição, depois de ouvirmos Pedro Abad, a opinião foi unânime: o cara está mais para síndico de prédio em Jacarepaguá. Aquele tipo de síndico indeciso, se troca ou conserta a caixa d?água velha.

Agradeço pela paciência de quem me leu, mesmo que por curto período e que acabou desistindo. Um grande 2019 para todos, mesmo com as péssimas perspectivas para o nosso clube.

Claro que continuarei torcendo e apaixonado, sou tricolor há exatos 62 anos, quando pela primeira vez li sobre Carlos Castilho aos seis anos de idade. Mas não consigo mais remexer em lixo. A ideia inicial era escrever sobre futebol, não sobre os flibusteiros que se aboletaram no clube. Estou à disposição para troca de e-mails, telefone ou zapp.

Cezar Motta - cezar_motta@uol.com.br


 
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