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O Fla-Flu de 1919

1919. Estamos chegando à rua Paissandu. Tudo no campo do Flamengo tem a tensão da vitória. A bilheteria fecha. Não cabe mais um alfinete. Antes do apito inicial, alguém quebra a cabeça de alguém com uma garrafada. As mulheres abanavam-se (até hoje não entendo a burrice feminina de não usar leque nesta Sibéria de fogo). Os dois times estão em campo, formados. O juiz apita. Começou.

Nesta tribuna de honra estava o Presidente da República, Epitácio Pessoa. Sim, Epitácio antes das cartas falsas, de 22, dos 18 do Forte. Fisicamente pequenino, ele andava tenso, ereto, de fronte alçada, como se estivesse ouvindo um permanente e fantástico Hino Nacional.

Começou o Fluminense x Flamengo de 1919. Antes, porém preciso falar de outras figuras, além de Epitácio. Por exemplo: - o juiz. Poucos, raríssimos sobreviveram àquele jogo. Morreram Epitácio, quase todos os jogadores, as duas torcidas, os bandeirinhas. Os bandeirinhas, de pingar sobre o seu nome e a sua arbitragem uma dúvida, uma suspeita.

Mas o povo precisa chamar um juiz, qualquer juiz, de ladrão. Reside aí talvez a cruel, a fatal volúpia do futebol. O torcedor morreria de Pena, de frustração, se não xingasse de gatuno o homem do apito. Se ainda hoje é assim, antes era pior. Em nossa época, o árbitro ganha: todas as suas virtudes e todas os seus defeitos são remunerados. Naquele tempo, porém, o juiz não recebia um único e escasso tostão. E, se cometia um erro, e mesmo sem cometer erro nenhum, logo explodia o clamor de vendido, comprado, ladrão.

E, aos oito minutos de jogo, pênalti contra o Fluminense. Ora, era uma partida que trazia, em seu ventre, o campeão. Como em 50 para o Brasil, o empate, o simples empate, daria o título ao Tricolor.

Estava lá, na tribuna de honra, o Presidente da República. Até Epitácio se deixara tocar pela magia da batalha. Deve ter perguntado, baixo, ao ajudante-de-ordens: - "Pênalti? Que é pênalti?"

Eis a opção do jogador que cobra o pênalti: - ou bomba ou bola colocada. O juiz apita. Até o Presidente da República está ferido de angústia. Ah, Epitácio vai pouco a futebol e é um desses espectadores capazes de perguntar: - "Quem é a bola?" Perturba-o, como um mistério, a mise-en-scène do pênalti. A cobrança de uma penalidade máxima é o momento religioso da partida.

Ora, Marcos sabe que ele é tudo. Sim, é o Deus do momento. Ele vai salvar ou perder o tricampeonato. Concentração. Serenidade intensa, calma apaixonada. Nunca sua visão foi tão límpida e tão exata. Tudo vai depender de um reflexo fulminante. Ademar Martins caminha para a bola. Jamais alguém foi tão olhado como o goleiro na hora do tiro de misericórdia. Não existe mais ninguém no estádio. Nem o artilheiro da falta. Nem o juiz, que a marcou. O próprio Presidente da República tornou-se, de repente, secundário, nulo. É o Chefe da Nação, mas o pênalti fez o estadista um pobre diabo.

A própria paisagem cessa de existir. Foi disparada a bola. E Marcos defende, como se diz hoje, parcialmente. Mas "defender parcialmente" um pênalti é um milagre. Mas antes do tiro e da defesa, Marcos pensa:- "Se eu defender tenho que mandar a bola para os lados". Ademar Martins olha, apavorado. Já não entendera a marcação do pênalti e muito menos a defesa de Marcos. A um milímetro da vitória, subitamente à perdia. Na tribuna de honra, o olhar de D. Guilhermina Guinle tem uma doçura mais viva.

Mais continua o perigo. Nova bomba, à queima-roupa. Reflexo prodigioso de Marcos. O Presidente da República tem um espanto de menino. Não entende que o mesmo penalti seja desdobrado em três. Marcos defende a primeira vez, a segunda vez. E vem uma terceira bomba, mais vingativa, mais cruel do que as outras. Desta vez, ele se agarra e se abraça à bola como a um fado. Três defesas rigorosamente impossíveis. E ninguém percebeu, porque ninguém enxerga o óbvio, que estava, ali, o Sobrenatural de Almeida.

Tricolores se abraçavam e se beijavam. Moças desmaiavam. Defendido o pênalti, tudo voltou à sua hierarquia. O Presidente da República podia ser novamente Presidente da República. E o ajudante-de-ordens, distraído por um momento da adulação, da subserviência, voltara a lamber com a vista S. Exa. E o azul da tarde escorreu sobre o povo. Debaixo dos três paus, estava Marcos ainda crispado. Vivera um instante de onipotência. A fitinha roxa parecia vemelha de sangue rútilo.

Ah, o brasileiro de 1919 tinha uma estrutura muito mais doce. E era outro o Brasil. Um turista que por aqui passasse, havia de anotar no seu caderninho: - "Isso é a pátria do fraque". Mas eis o que importa destacar: - naquela época, o Presidente da República podia ir a um campo de futebol, ver um Fluminense x Flamengo.

Aí está o feio e negro abismo cavado entre as duas épocas: - em 1919, quando Epitácio Pessoa apareceu na tribuna de honra, a multidão bateu palmas, de pé: hoje, o Poder não pode entrar no ex-Maracanã, agora Mário Filho. No maior estádio do mundo, vaia-se até minuto de silêncio. E assim vaiando qualquer um, o homem de arquibancada tem uma sensação de onipotência.

E, de repente, Bachi toma a bola. Dribla um, dribla outro. É uma penetração fulminante. Não era jogador de bomba. Mas sabia empurrar a bola no canto certo, desintegrando o goleiro. Ele sentiu, farejou, apalpou o gol, antes de fazê-lo. E, então, ergueu-se do povo o uivo ou, por outra, o mugido. Foi um mugido. Gol, gol. Do Fluminense.

Há, entre cada um de nós e esse primeiro gol de Bacchi, meio século. Cinquenta anos. Aquela multidão já morreu, quase toda já morreu. Uns poucos sobrevivem. Eu desejaria perguntar a um dos sobreviventes se, no gol de Bacchi, o canhão do Tota Rodrigues soltou um dos seus estrondos medonhos. O estádio tremeu. As mulheres desfaleciam. E não sei qual era mais formidável, se a euforia Tricolor, se o silêncio Rubro-Negro.

Nélson Rodrigues


 
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