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O Primeiro Fla-Flu

Valentim, o tratador do campo do Fluminense, um português de cara redonda e risonha, com bigodes orgulhosamente empinados andava desde cedo, naquela manhá de 7 de Julho de 1912 às voltas com o burro do Félix e a máqnina de aparar grama. O burro do Félix - Félix Frias comprara-o e fizera presente dele ao Fluminense - era uma figura popular. Pacientemente ele arregava a máquina de cortar grama enquanto o Ualentim estalava a língua, como um chicote imaginário. O burro do Félix - embora os burros não sejam tão burros quanto se pensa - não entendia o resmungar do Valentim. Ele esticava as orelhas. E sons complicados alcançavam-lhe os tímpanos. Valentim falava sozinho. E, de repente, encarou o espanto do burro do Félix, para dizer: "É hoje, meu burrico, é hoje".

A tabela do campeonato da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres marcavam um jogo para "logo mais". Por isso o o mastro, junto da sede já desfraldava ao vento, a bandeira do Fluminense e a bandeira do "outro": O Valentim sabia que o "outro" era o Flamengo - um clube de remo. Ele ainda se lembrava de "tudo". De uma vez só, abandonaram o Fluminense dez jogadores do primeiro time. Ao pensar nisso o coração do Valentim queria saltar para fora. Que podia fazer o Fluminense - com o segundo quadro - contra o Flamenengo? Jogadorespropriamente de primeira categoria, havia dois: Osvaldo Gomes e Calvert. Apesar dos pesares, o Valentim confiava. Via-se cada coisa em futebol! E, depois, com que cara os jogadores do Fluminense de 911 iriam aparecer para enfrentar o Fluminense! O Valentim concluiu que nunca, nunca seriam capazes de fazer uma "coisa daquelas".

Começou a chegar gente cedo. A luz do sol brilhava no telhado de zinco das arquibancadas, coloria a grama - bem cortada. (Também o Valentim trabalhava feito um mouro; ele e o burro do Félix). Cercava o campo, separando-o das ruas da Guanabara, hoje ålvaro Chaves, um muro não muito alto. Em dia de jogo pretos fortes ficavam de fora, perguntando quem queria saltar o muro por $400. Uma geral custava dez tostões. Arquibancadas 2$000. Entrava-se para a geral pela Rua Guanabara. Os portões das arquibancadas davam de frente para a Rua Retiro da Guanabara. Já desaparecera a vacaria ao lado. Dela restava a recordação de um boi que, em 910, raspara os chifres, em plena corrida, pelo muro cheio de gente - os caronas da época. E um marinheiro teve que dar um tiro no boi. Atirando na perna dele a pedido do dono da vacaria, para "não matar". Dentro, o campo tinha uma cerca baixa, de pau, pintada de branco. Não havia degraus nas gerais, porém se ditinguiam bem os três "chalets" das arquibancadas. As arquibancadas se alongavam tomando quase todo o comprimento do "frield" -o nome do gramado, tal como aparecia impresso nos jornais E, no fundo, onde está hoje o relógio, cresciam barrancos de grama. O pavilhão da sede ficava atrás de tudo. O bar, do lado direito. Os "courts" de ténis - dançava-se e patinava-se lá - do lado esquerdo. Em volta das mesas de ferro, "sportmen" de chapéu de palha, com fitinha das cores do Fluminense, sentavam-se para tomar cerveja e discutir o jogo, que ia começar daqui a pouco.

Os jogadores almoçaram em casa mais cedo. E foram para o clube de maleta embaixo do braço. Dentro da maleta estavam as chuteiras, a camisa, as meias. Os do Fluminense se apresentaram vestidos à paisana, todos de chapéu de palha. Os do Flamengo, porém, foram encontrar-se no barracão da garagem, lá na praia. Alberto Borgerth, o capitão, chegou primeiro. Ele ficou de fora, tomando nota dos que entravam."Mude a roupa depressa! Está quase na hora!" Por fora ele apresentava a fisionomia de sempre calma, grave. Com aquela calma e gravidade que o tornaram líder dos jogadores. Por dentro, porém, ele sentiu o coração bater com mais força. Também não era para menos. O Flamengo futebol, verdadeiramente, nascia ali.

A torcida do Flamengo era pequena. Quase não tinha ninguém. Júlio Furtado, Manuel de Almeida, Pimenta de Melo, José Agostinho, Pereira da Cunha - foram forçados a ir para o campo da Rua Guanabara com chapéu de palha e fita comum. E isso porque as fitas com as cores do clube vinham da Inglaterra. Por encomenda. Também o Flamengo vivia os primeiros dias de futebol. Sem campo próprio, ele treinava no "field" público da Praia do Russel. E foi por isso - mais tarde o Flamengo abençoaria as dificuldades de tal princípio - que ele se tornou popular. Os clubes eram fechados trancados pelos muros de tijolo. Treinando em casa, privadamente. O Flamengo por necessidade, teve que bater bola na praça, à vista de todo mundo. Entretanto, porém, em contato com o torcedor. Os garotos cercavam os jogadores. Dizendo"’Aquele é Néri! Aquele é Píndaro!" E acabaram Flamengo.

Chegara a hora de partir para o campo do Fluminense. Borgerth mandou chamar dois táxis de sete lugares, - automóveis altos, largos, barulhentos, de capota arriada. Cada jogador teve que coçar a carteira de níqueis, para completar a "vaquinha . E lá se foram eles, uniformizados. Com a camisa dos quadrados vermelhos e pretos, cruzando-se, como os quadrados de um tabuleiro de xadrez. O carioca irreverente descrobriu uma semelhança danada entre aquela camisa e o papagaio de vintém que se empinava nas manhãs claras, balançando ao vento.

Aleguá! guá guá; - gritavam os jogaadores dentro do carro, quando em quando, avisando aos transeuntes, que paravam, para vê-los passar, que iam disputar uma partida. Um ou outro popular, da calçada, levantando o braço, desejando boa sorte para os jogadores do Flamengo, "você sabe que também tem um time de futebol".

Os quadros entram em campo. Quem recebeu mais palmas foio do Fluminense, de camisa de malha, com um escudo grande no peito. Borgerth estava diante da arquibancada, tão conhecida dele, para comandar o Aleguá! E ele viu, com os olhos da imaginação, uma "corbeillé" de flores gigantesa tomando toda largura da arquibancada. As flores eram os chapéus de palha dos torcedores, os leques agitados por mãos nervosas . Os onze jogadores de camisa de papagaio de vintém gritaram aleguá. Enquanto isso o Fluminense posava para o fotógrafo da "Careta".

O fotógrafo escondia-se debaixo do pano preto e, de quando em quando, pedia atenção, eu não sei por que. Os jogadores do Fluminense estavam imóveis. Sérios. Laport, gorducho, com as mãos cruzadas sobre o peito; Maia, exibindo a insolência dos bigodes retorcidos; Belo, de toalha ao pescoço, todos de pé. Nomeio do grupo, os halves ajoelhados:Leal, Muniz e Pernambuco. E, no primeiro plano, sentados budicamente, com os pés cruzados, os fowards Osvaldo, Bartolomeu, Berman, E. Calvert e J. Calvert. Bermann tinha a bola presa na forquilha dos pés cruzados. E, ao lado, Frank Robinson estufava o peito. Ele era o juíz.

O "País"’, do dia 9 de julho, disse que muito embora o turfe e o "rowing" (só se chamava o remo de "rowing", à inglesa, naquele tempo), reuniu-se no "field" - onde se realizou o "meeting " (ei me limito a transcrever), numerosa e selecta (com o c no meio) e expansiva assistência". O kick-off foi dado as quinze horas e cinqüenta e cinco. æs quinze e cinqüenta e seis, Calvert abria o escore para o Fluminense. O Flamengo não ligou importância. Não havia de ser nada. E, realmente, parecia que "não havia se ser nada" pois Arnaldo empatava três minutos depois. Quem podia duvidar da vitória do Flamengo? Em 11, aquele time, vestindo a camisa do Fluminense, levantara o campeonato da cidade sem um ponto perdido e apenas com um gol contra. Quando acabou o primeiro tempo - não se fez mais gol - os torcedores homens se reuniram no bar para tomar ceveja. As torcedoras, ou passeavam na pista, de sombrinha aberta, ou agitavam nervosamente os leques, sentadas nos degraus das arquibancadas.

O segundo tempo reservou uma supresa, porém. Aos quinze minutos de jogo Cintra fez hands. Calvert bate com um chute forte, Baena agarra e larga. A bola alcança o fundo das redes. Era o primeiro "frango" do Fla-Flu. Ouviu-se um barulho danado. As torcedoras davam gritinhos. E a multidão fez aleguá! três vezes consecutivas. O Flamengo viu a derrota. E aí todo ele foi para o ataque, por que o time partia do princípio de que tanto fazia perder por um como por dois. E Píndaro, transformado em foward, empata a partida vinte e três minutos depois. Estava para acabar o jogo. O Fluminense dá a saída. Calvert pega a bola, corre e centra. A bola atravessa o campo, cai nos pés de Bartolomeu que manda às redes. Parecia que as arquibanradas do Fluminense vinham abaixo. Os torcedores batiam comos pés em cima dos degraus. E toca a grita aleguá! Quase não houve tempo para nova saída. Frank Robinson apitou logo depois, acenando os braços. Aí os garotos pularam para dentro do campo. Não para abraçar os jogadores e sim para ver quem apanhava mais depressa as bandeirinhas de córner.Cada bandeirinha de córner entregue ao zelador do campo valia quinhentos réis - um cruzado e um tostáo. Com quinhentos réis o moleque de 12 anos podia divertir-se a valer no Parque do Fluminense, lá no Largo do Machado, onde fica o Politeama, que tinha um "carroussel", uma roda gigante e uma aranha que falava, com cabeça de mulher.

É. O Flamengo tinha perdido o primeiro Fla-Flu. Borgerth, porém, reuniu os jogadores. Eles correram juntos para diante das arquibancadas. Todo barulho cessou. E ouviu-se distintamente: Aleguá!Fluminense!Fluminense!Fluminense! Borgerth sentiu um nó na garganta.Que era aquilo? Ele foi abraçado por Muntzenbeche que, com a voz nasal, perguntou se o Alberto estava de cabeça inchada. Estava. "Logo se vê - disse Muntzenbeche - Ria. Borgerth. Não fique com a cara assim!" Era o gozo, fatal depois de cada derrota. Borgerth abraçou um por um os jogadores do Fluminense. E os dois times, confraternizados, foram beber soda, juntos, no bar do Fluminens. E foi aí que Borgeth deparou com Valentim, o português que tratava do campo. Valentim não disse nada. Olhou só para Borgerth. Como se perguntasse: "Então?, biste?"

Borgerth "bira". E lá no bar ele tentou rir. Ele e os jogadores do Flamengo. O riso, porém saía amarelo, sem vontade. Quem ria a valer era Laport, o "Zé Pinha" de cara rechonchuda. Pudera: EIe apostara no Fluminense e ganhara. (Foi Laport quem inaugurou a aposta em futebol. "Eu sou Fluminense! E você? Então vamos apostar!" Apostava qualquer quantia, assustando o "outro" pela confiança que ele tinha na vitória do FIuminense, quando ele era Fluminense, e na vitória do Flamengo, quando ele era Flamengo). E Píndaro fazia sinal de "estava na hora". Borgerth compreendeu. Não era nada agradável ficar ali, ouvindo "não quer tomar alguma coisa para a dor de cabeça?"; A sede do Fluminense estava cheia de gente. Tudo de cara feliz. Os torcedores do Flamengo despediram-se. Foram tomar os dois "double phaeton" de capota arriada. Torcedores esperando lá fora, com os sorrisos mais sem vergonhas deste mundo. E quando os carros, levando o time do Flamengo, partiram, arrastaram uma porção de latas de querosene amarradas no eixo das rodas. O Flamengo, como se dizia então, a respeito de namoradas que davam o contra ou de partidas de futebol que se perdiam, "levava a lata".

Mário Filho


 
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