Futebol é Simples Mas Impiedoso : Não Perdoa Invencionices (17/02/2008)
Caros Tricolores,
Estou evitando escrever neste espaço porque tenho andado meio amargurado com as coisas que vêm acontecendo no Fluminense, então, não estava querendo compartilhar com vocês esse pessimismo às vésperas de uma Libertadores, competição importante e muito desejada, algo que o Flu não disputa há 23 anos.
Entretanto, como acho que a maioria da torcida encontra-se aparentemente ?cega?, espero com este artigo fazer com que algumas pessoas reflitam.
No jogo de ontem contra o Botafogo (o primeiro teste real do ano), o Flu conseguiu a proeza de perder merecidamente uma partida decisiva para um time tecnicamente inferior, terminando o jogo como um bando em campo, sem qualquer padrão tático.
O Sr. Renato Gaúcho conseguiu desmontar qualquer possibilidade de reação ao substituir o volante Maurício (um dos melhores do Flu em campo) pelo atacante Dodô, reinventando o esquema 4-3-3 que só tem possibilidade de dar certo contra os ?sparrings? do futebol carioca, mas nunca num jogo entre grandes equipes.
Após esta substituição, o Flu sequer conseguiu finalizar. O próprio Dodô não pegou na bola durante toda partida, mesmo contra um adversário que passou boa parte do segundo tempo com apenas 10 jogadores em campo.
No final, uma substituição sem nexo algum aos 40 do 2o. tempo, tirando o Gabriel e colocando Cícero, deslocando o Leandro Amaral para uma espécie de lateral-direito. Essa aberração tática provocou na sequência a expulsão do excelente Thiago Silva, que ficou muito exposto ao contra-ataque adversário, e ainda conseguiu a proeza de levar o 2o. gol.
O mais incrível pra mim foi ver a torcida do Flu, que fez a sua parte e compareceu em esmagadora maioria, aplaudir o time ao final do jogo... nenhum grito de "BURRO", nem unzinho sequer... realmente incrível.
Ainda pensei : será que estou surdo ? Mas era isso mesmo : a torcida inacreditavelmente poupou de críticas um treinador que tem à sua disposição talvez o melhor elenco do Brasil, que tem ao seu lado o preparador-físico da seleção brasileira (Fábio Marsheredjan), que teve todo elenco disponível antes da pré-temporada, que teve toda a 1a. fase do estadual para treinar (jogando apenas em casa e portanto sem viagens nem competições paralelas), que teve à disposição a base montada por ele mesmo em 2007 (onde nenhum jogador importante foi negociado) e que teve todo elenco com salários em dia bancados por um patrocínio precioso.
Talvez a condescendência da torcida seja explicada pelo fato do Sr. Renato Gaúcho ser uma figura carismática, vitoriosa e importante na história recente do Fluminense. Mas acho que a folha de serviços prestados não pode torná-lo imune a críticas.
Para quem não sabe Renato Gaúcho ganha próximo de R$ 300 mil / mês, um padrão salarial que apenas Wanderlei Luxmburgo e Muricy Ramalho possuem no Brasil. A diferença é que estes dois possuem um currículo devastador em conquistas se comparadas ao nosso treinador, um profissional ainda em início de carreira.
A verdade é que o Fluminense 2008 não mostrou ainda um mínimo padrão de jogo ! Já são 9 jogos na temporada com sofrimento para vencer ?sparrings? como Duque de Caxias e tropeços diante de Macaé e Boa Vista. Na hora ?H?, uma derrota merecida para um adversário inferior, mas que sabia o que fazer em campo.
Será que é tão difícil enxergar que a escalação de 3 atacantes torna o time frágil no setor onde se decidem as partidas, o meio-de-campo ? Inferioridade técnica no meio-campo já é algo crítico, mas inferioridade numérica é mortal !
Será que é tão difícil enxergar que bastava pegar o mesmo time que terminou o campeonato brasileiro de 2007 em 4o. lugar e trocar os atacantes Soares e Adriando Magrão por quaisquer dois entre os 3 novos contratados ? Será que a vaidade não deixa fazer o óbvio ? É viável reinventar esquemas em desuso desde a década de 80 apenas para aparecer na mídia e agradar a imprensa romântica, que não tem compromisso com os resultados ?
Por que no São Paulo campeão nacional de 2007 jogadores como Aloísio, Dagoberto, Leandro Guerreiro, Borges e tantos outros se revezavam entre o banco de reservas e a titularidade do ataque conforme as características do adversário ? Só jogam no máximo dois !
Por que no Fluminense tem que ser diferente ? Falta coragem para barrar medalhões ? Ou a vaidade não permite escalar o óbvio que seria 3-5-2 ou 4-4-2 ? No elenco atual do Flu existem jogadores do quilate de Roger, Cícero, Carlinhos e Conca como suplentes, portanto, é possível variar o esquema e trocar peças sem maiores dificuldades.
Será que, justamente no ano mais importante dos últimos tempos para a torcida tricolor, colocaremos tudo a perder por conta do narcisismo de uma única pessoa, que não admite ouvir e reconhecer seus erros ?
Será que a colocação de um 3o. atacante e a consequente destruição do setor de meio-campo será a única mexida que poderemos esperar toda vez que o time precisar virar um resultado ?
Será que compensa a rixa explícita que o treinador vem demonstrando contra alguns jogadores importantes como Gabriel e Arouca ? Não seria ideal protegê-los, conversando e tentando conquistar a confiança de ambos, ao invés de expô-los ? A postura que vem sendo adotada é adequada a um comandante ?
Eu reconheço que o Sr. Renato Gaúcho teve méritos na conquista da Copa do Brasil 2007, tem história no clube e possui algumas características interessantes, como a liderança e a capacidade de sem impor. Entretanto, sua arrogância (explícita nas entrevistas), sua marra e sua teimosia têm se mostrado defeitos cada dia mais evidentes.
Outras decisões inexplicáveis também estão na sua conta, como o fato de referendar a contratação do ?chinelinho? Gustavo Nery, lateral ?cansado? de 31 anos que não joga absolutamente nada há 3 temporadas, e do ?possante? Ygor, jogador apenas mediano, recém-rebaixado no futebol norueguês, que veio com status de titular absoluto e atualmente é intocável na equipe desde o 1o. jogo. O mais incrível é que o Renato preferiu seu apadrinhado Ygor ao excelente Fabinho ?Tolouse?, que acabou acertando com o rebaixado Corinthians, volante com experiência internacional, titular e ídolo de sua equipe num campeonato de alto nível como o francês.
Certamente não é o momento para demissão, até porque isto seria um absurdo estratégico às vésperas da Libertadores, mas é bom ligarem a luz-amarela em Laranjeiras.
Em qualquer área do mundo corporativo um líder pode facilmente perder o respeito de seus subordinados. Pra mim isso está evidente que já está acontecendo com boa parte do elenco, afinal de contas, nenhum subordinado gosta de saber que existem protegidos por parte do chefe e nem respeita características como teimosia, arrogância e vaidade.
Se no Fluminense atual houvesse diretoria eu iria pedir para que se reúnam e discutam os rumos que estão se apresentando, tentando corrigí-los na base da conversa enquanto ainda dá tempo.
Mas como o comando é omisso e/ou inexistente acho que isso é uma expectativa muito otimista de minha parte. Fico na esperança para que o próprio treinador reflita, reconheça seus erros, tenha mais humildade e principalmente trabalhe mais.
A vitória do Botafogo por 2x0 foi o exemplo de um grupo apenas aplicado e bem trabalhado contra um time demasiadamente individualista, sem alegria para jogar, sem jogadas ensaiadas, sem inspiração e sem qualquer padrão tático, em resumo : mal escalado e mal treinado.
Como diria um grande amigo : ?No Fluminense atual, um lugar sem comando e hierarquia, a pulga sempre fica maior que o cachorro?.
Saudações Tricolores e boa sorte pra todos nós na Libertadores ! Acho que vamos precisar...
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