Problemas Atuais Do Fluminense : 2) Os Erros Da Cúpula Do Futebol (16/04/2006)
Caros Tricolores,
Esses períodos longos sem jogos do Fluminense normalmente são um problema para os tricolores como eu. Começa a bater aquela saudade avassaladora, uma espécie de síndrome de abstinência. Resultado : no penúltimo sábado (08-04-2006) acordei cedo e estive em Xerém para assistir ao Fla x Flu de juniores.
Após o jogo, eu estava conversando com um grupo de associados onde se encontravam também alguns diretores. Foi quando se dirigiu a nós o jovem zagueiro Anderson e pediu a um dos diretores para voltar ao time de juniores. Na hora fiquei sem entender. Perguntei a mim mesmo : por que o Anderson quer voltar aos juniores após agradar nos profissionais ? Ele foi escalado literalmente "na fogueira" durante o estadual, entrou num time completamente desequilibrado fisicamente, mal estruturado taticamente e que colhia péssimos resultados. Sua estréia foi na vitória de 2x0 contra o América, depois atuou ainda nos jogos contra o Operário-MT (3x1), Vasco (2x2) e Botafogo (2x2). É verdade que suas atuações não foram brilhantes, mas foram consideradas satisfatórias pela maioria esmagadora da mídia e também da torcida. Digamos que ele "deu conta do recado" e mesmo estando um pouco nervoso na estréia jogou de forma simples e segura, formando uma dupla de zaga firme juntamente com o Thiago Silva. Tudo acima do esperado para um jovem zagueiro estreante que foi "jogado ao fogo" num time que estava sob pressão intensa após aquela vexatória derrota de 4x1 para o Friburguense. É praticamente unânime dentro do clube que este garoto ainda pode evoluir bastante.
Pois bem, fui apurar com os amigos que assistem aos treinamentos e descobri o provável motivo do Anderson estar desejando voltar aos juniores : o novo treinador Oswaldo Oliveira não vem aproveitando o atleta durante os treinamentos. A zaga titular é Thiago Silva e Thiago, uma dupla de respeito que tem tudo pra dar certo, e ambos já contam com alguma experiência, inclusive internacional. Neste ponto concordo inteiramente com o treinador. Entretanto, a zaga reserva tem contado com Gabriel Santos, Roger e até Cruz nos coletivos e jogos-treinos. O Anderson não vem sendo aproveitado, o que é extremamente incoerente em virtude das boas atuações recentes e das convocações para seleções de base, que o credenciam ainda mais. No jogo contra o Vila Nova-GO (2x2) pela Copa do Brasil, novamente o Gabriel Santos estava no banco, enquanto o Anderson sequer tinha sido relacionado.
Não culpo o atleta, que quer jogar, se manter em atividade e continuar evoluindo. Não culpo o Oswaldo, que está iniciando agora com este grupo e como qualquer comandante que chega vai optar pelos mais experientes, obedecendo uma certa hierarquia.
Acho que o problema aqui é simplesmente falta de comunicação e de uma diretriz mais concreta por parte da diretoria, senão vejamos : o contrato do Gabriel Santos vai até 31/05/2006. O Fluminense já optou por não renovar e inclusive já comunicou a decisão ao seu procurador. O Cruz teve algumas chances no time de cima e não foi bem. Se machucou muito e até agora não evoluiu. Diante deste quadro, por que a diretoria não abordou o Oswaldo Oliveira no momento da sua contratação e apresentou textualmente apenas os atletas que o clube pretende contar para o restante da temporada ? Será que ainda existe alguma dúvida dentro do departamento de futebol ? É melhor apostar no Anderson (bom potencial, 18 anos, agradou nas chances que teve e tem direitos federativos presos ao Fluminense) ou no Gabriel Santos (mais velho, não aprovou, não pertence ao clube e tem salário pelo menos 6 vezes maior) ? Pra mim não existe dúvida alguma. No elenco atual, o mesmo raciocínio serve para escolher entre Angelo e Romeu (ou Radamés), por exemplo.
Os exemplos acima ilustram uma situações na qual eu considero que a diretoria do futebol agiu de forma errada, mas que ainda existe tempo para corrigir. Outros erros, porém, têm custado muito caro e talvez agora sejam de solução bastante difícil.
Por exemplo, eu continuo tendo a seguinte decepção com a cúpula do futebol tricolor : sai diretoria e entra diretoria, mas o clube continua sem dar o devido valor ao trabalho de garimpagem de talentos nos times de menor investimento. Um clube do porte do Fluminense deveria ter no mínimo uns 3 observadores técnicos permanentes, independentes das comissões técnicas, profissionais que assistam as Séries B e C, campeonato paulista da série A-2, Copa SP de Juniores, Taça BH de Juniores, façam viagens para acompanhamento de atletas e tudo mais. Hoje é até mais fácil estabelecer esta estrutura do que antes porque a maioria destes campeonatos é exibida na TV por assinatura (Premiere Esportes, Rede Vida, ESPN Brasil).
É possível monitorar o atleta pelas transmissões, buscar informações pela internet (grande aliada através dos sites de jornais locais) e só depois viajar com o objetivo de consolidar uma análise definitiva em um ou dois jogos antes de formalizar uma proposta para trazer o jogador. É lógico que apostas erradas vão ocorrer, mas o custo desta abordagem é baixo, as apostas são mais seguras e o retorno no curto/médio prazo é garantido. Rivais como São Paulo, Cruzeiro e Atlético-PR usam largamente esta estratégia, e não é a toa que sejam exatamente estes clubes os que mais lucraram nos últimos anos com venda de jogadores ao exterior, sem contar no valioso patrimônio e estrutura que puderam montar, e ainda todos os títulos que conquistaram.
Sinceramente não consigo entender algumas apostas recentes, que vão totalmente de encontro ao que penso, por exemplo : Adriano Magrão, um jogador de 28 anos que nunca brilhou em clube algum, contratado sem observação prévia. E o Marcos Aurélio? Currículo parecido, mas com agravante de um histórico recente de lesões. E o Pedrinho? jogador de excelente qualidade técnica, mas de salário muito alto e constantes problemas físicos, pior relação custo-benefício não existe. E o Angelo ? Será que alguém pesquisou o histórico recente de atuações deste jogador ? Não seria mais barato e mais válido tecnicamente apostar em soluções caseiras como Fernando, Radamés e Romeu? E o Bruno ? Uma revelação dispensada do Grêmio após 4 anos de contrato? Será que algum outro clube grande viria ao Fluminense contratar o Tiago, Alan ou Esquerdinha, por exemplo ? Até quando vamos continuar contratando jogadores medianos "oferecidos", sem avaliar seu passado recente ou suas condições atléticas decadentes ? Até quando vamos continuar contratando jogador apenas pelo "nome" ?
Alguns dirão : - Ah, mas o Assis veio para o Flu com 29 anos e foi decisivo !
É verdade, mas o Assis foi apenas uma das exceções que confirmam a regra : as apostas que normalmente têm boa relação custo-benefício apontam para jogadores jovens e captados através de intenso trabalho de observação, o que dá um mínimo de segurança para o investimento. É lógico que apostas erradas podem sempre acontecer (e se acontecerem o valor investido terá sido provavelmente de pequeno porte), mas a prática no futebol nacional têm provado que o trabalho de garimpagem de talentos bem feito minimiza os erros nas contratações e na montagem das equipes. Hoje temos na equipe grandes jogadores pagos pela Unimed. Na minha opinião, o complemento do elenco poderia ser formado por juniores e apostas trazidas via trabalho de garimpagem.
Uma outra coisa que me incomoda é a forma como as revelações das divisões de base têm sido lançadas no time de cima. Existem jogadores que não sentem a pressão e conseguem desde o início manter o nível de atuação que tinham na base. Um destes exemplos é o Lenny, que no ano passado foi colocado "na fogueira" pelo Abel Braga, mas mesmo jogando fora de posição conseguiu deixar boa impressão. Um outro exemplo recente é o zagueiro Anderson, descrito no início deste artigo. Mas a maioria dos jogadores recém-saídos das divisões de base infelizmente não reage assim : me parece evidente que é necessário um "período de carência" antes que o jogador seja lançado entre os profissionais, onde o jogo é muito mais "pegado" e o atleta é muito mais exigido fisicamente. É necessária uma mínima adaptação, deixando o jogador por algum tempo treinando entre os profissionais e depois sendo lançado em partidas de menor expressão.
Essa "transição ótima" às vezes é impossível por conta da urgência provocada por lesões e/ou suspensões no time principal, mas isso também não é regra. Normalmente é possível lançar os garotos de uma forma mais segura e esta deveria ser uma diretriz clara passada a todos os treinadores que o Fluminense pensar em contratar. Por exemplo : por que a diretoria atual não traçou como objetivo usar a pré-temporada e o campeonato estadual para tentar firmar entre os profissionais pelo menos uma das boas promessas que o clube tem atualmente para a lateral-esquerda (Marcelo e/ou Ulisses) ?
Que se trouxesse uma aposta para titular da lateral-esquerda e se mantivesse um dos dois jovens na reserva imediata, mas isso não foi feito. Resultado : os laterais que chegaram ainda não agradaram e agora vamos tentar consolidar nossas apostas durante o dificílimo campeonato brasileiro. Eles podem até arrebentar (tomara que sim!), mas também podemos queimá-los de vez, dependendo de seus desempenhos. A estréia durante o estadual teria sido muito mais segura. Alguém tem alguma dúvida disso ? Vejam o exemplo recente do Arouca : lançado durante o estadual de 2005, conseguiu se firmar, ganhar confiança e no campeonato brasileiro se transformou num dos principais jogadores da equipe.
Ainda sobre as decepções recentes, fico mais aliviado ao perceber que deixamos de fazer experiências no assunto comissão técnica, o que nos custou o título estadual mais fácil de todos os tempos e um desempenho pífio no campeonato estadual. A contratação do Oswaldo de Oliveira é representativa, tem meu apoio e tem boas chances de dar certo. Mas se não der, que a diretoria seja rápida o suficiente para corrigir os rumos novamente, não apenas no comando mas também no elenco e na preparação física, se for o caso.
Me parece que a diretoria atual reconheceu que atualmente falta estrutura ao Fluminense. É um começo. Eu concordo que a saída do futebol de Laranjeiras é urgente, mas a construção de um centro de treinamentos em Xerém deve ser muito bem analisada. Acho que a solução deve estar focada no projeto com o patamar de excelência que o Fluminense merece, descartando soluções improvisadas e imediatistas, caso contrário o clube pode até regredir.
Por último, não tenho dúvidas em afirmar que houve evolução na gestão do futebol do Flu em relação aos mandatos recentes : a administração descentralizada trouxe benefícios, bem como a criação de cargos remunerados de coordenação e gerência, que legitimam uma maior cobrança. Entretanto, os erros ainda acontecem e as correções de rumo que estão ao alcance da cúpula do futebol precisam ser feitas. Este texto não tem por objetivo fazer uma "caça às bruxas". É apenas um desabafo sobre algumas das coisas que considero erradas no Fluminense atual e que poderiam ser melhoradas através de ações até certo ponto simples. Acho que vale no mínimo uma reflexão.
Boa sorte a todos nós no Campeonato Brasileiro !
Saudações Tricolores !
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