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Problemas Atuais Do Fluminense F. C. : 1) O Caixa Único (07/04/2006)

Caros Tricolores,

O problema do "caixa único" não é exclusivo do Fluminense e atinge a maioria dos grandes clubes do futebol brasileiro, principalmente os mais antigos, que foram estruturados fisicamente a partir de sua sede social. O problema consiste na centralização do caixa da instituição num centro de custos único, que financia desde o pagamento dos jogadores à compra do cloro da piscina.

Este modelo funcionou de forma satisfatória até o final da década de 70. Naquela época, os custos envolvidos na formação de um grande time de futebol eram particularmente reduzidos : o Rivelino, por exemplo, era o principal jogador do futebol brasileiro e ganhava no Fluminense o equivalente US$10 mil, o maior salário de jogador de futebol da época. Desta forma, as receitas provenientes da bilheteria e a arrecadação de mensalidades eram suficientes para fazer o clube sobreviver com alguma folga. Na época o Fluminense tinha cerca de 25.000 sócios pagantes, o que aumentava a importância da arrecadação social no custeio de toda a instituição.

O problema é que os tempos mudaram. Com a entrada maciça da TV no mundo do futebol as receitas subiram exponencialmente, mas as despesas também. Com a maior visibilidade, vieram os patrocínios de camisa, as placas de publicidade e outros ativos, mas também houve diminuição do público médio nos estádios, reduzindo a receita de bilheteria. Aliado a isso, surgiram nas metrópoles grandes academias, condomínios de luxo, clubes sociais mais estruturados, shopping centers e muitas outras opções de lazer que competem diretamente com o interesse do grande público pela parte social do Fluminense F.C. Estes fatores aliados à falta de modernização da sede, acarretaram diminuição expressiva no número de sócios, que hoje não passa de 5.000 pagantes.

Atualmente, as receitas que realmente sustentam o Fluminense F.C. são diretamente ligadas ao departamento de futebol. As mais expressivas são as cotas de transmissão dos jogos pela TV (Globo e pay-per-view), o patrocínio da camisa (Unimed), o patrocínio do fornecedor de material esportivo (Adidas) e eventualmente a negociação de atletas. As outras receitas são irrisórias para os padrões do futebol moderno.

A verba de bilheteria infelizmente é sofrível : poucos jogos no ano têm "casa cheia" e o preço do ingresso obrigatoriamente tem que ser baixo por conta do baixo poder aquisitivo da maioria dos brasileiros. Além disso, o problema se agrava porque o Fluminense não tem estádio próprio e é obrigado a alugar o Maracanã ou outra praça esportiva para mandar suas partidas. Em jogos com poucos pagantes, é comum que as despesas com aluguel do estádio, quadro móvel, taxa de iluminação, concentração, transporte e alimentação superem a receita da venda de ingressos, fazendo com que o clube literalmente "pague para jogar".

Uma outra receita conhecida mas pouco expressiva no Brasil é o licenciamento de produtos, que é mal explorado pelo Fluminense e pela maioria dos clubes, mas que também sofre com aspectos conjunturais como a competição desigual com os produtos piratas e o baixo poder aquisitivo da maioria da população.
Hoje em dia fica fácil concluir que o dinheiro oriundo do futebol sustenta quase todo o clube, o que é um absurdo administrativo. Não precisa ser nenhum expert em Administração de Empresas para entender que, nos tempos atuais, o Futebol, os Esportes Olímpicos e a Parte Social deveriam ser encarados como unidades de negócio separadas, cada uma com seu centro de custos específico.

Particularmente não sou contra nenhum esporte olímpico e acho que a sede social deve receber sempre constantes investimentos, mas sou completamente contra a idéia de que recursos oriundos do futebol devam sustentar estas despesas.

O limite de gastos para qualquer esporte olímpico praticado pelo clube deveria ser a receita obtida por este mesmo esporte em patrocínio próprio, incentivos do governo ou pelas suas escolinhas. Só funcionariam então os esportes que tivessem capacidade de ser auto-sustentáveis, cuja receita pudesse cobrir suas despesas e investimentos. Tivemos um bom exemplo disso no ano de 1998, quando a seguradora Oceânica patrocinou os salários de um timaço de basquete feminino no Fluminense, que acabou campeão brasileiro daquele ano. O Fluminense entrou apenas com a marca, a camisa e ofereceu local e condições de treinamento.

Os gastos para manutenção e melhorias na área social deveriam estar limitados ao montante arrecadado com as mensalidades dos sócios, à venda de títulos para sócios-proprietários e às demais taxas, como aluguéis de espaços do clube para eventos, colocação de outdoors e outros painéis publicitários, concessão de bares, restaurantes, video-locadora, entre outros.

Infelizmente não é isso que ocorre : é muito comum que a preciosa verba gerada pelo "core business" da instituição seja usada para comprar material da piscina, para pagar despesas de esportes olímpicos ou para fazer obras de manutenção na sede social. Nas reuniões do Conselho Diretor, sabe-se que são constantes as pressões exercidas por diretores dos Departamento de Esportes Olímpicos, Departamento Social e outros pela liberação do dinheiro oriundo do futebol. Os argumentos utilizados para conseguir as verbas contrariam a lógica administrativa e na maioria das vezes têm suporte na simples amizade ou em "dívidas de gratidão política" com grupelhos de associados eleitores, os chamados ?feudos do clube?.

Num modelo mais eficiente, o Departamento de Futebol Profissional deveria funcionar como uma unidade completamente autônoma, responsável por todas as suas receitas e despesas e vinculada apenas às Divisões de Base em Xerém e ao Departamento de Futsal, que são uma espécie de sub-unidades formadoras de talentos. Neste contexto, é importante ter sempre a noção que qualquer centavo colocado em Xerém ou no Futsal deve ser encarado como investimento e não como despesa.

A forma jurídica para conseguir a separação de centros de custo certamente é complexa mas não impossível, caso contrário o Corinthians não teria conseguido sua parceria atual com a MSI, moldada através de um contrato de licenciamento para gestão independente do departamento futebol profissional. Recentemente tivemos ainda o exemplo do Palmeiras, cujo departamento de futebol profissional funcionava em separado do clube social e era administrado pela Parmalat.

Alguns dados concretos que ilustram o problema do caixa único no Fluminense são listados abaixo : os números se referem ao exercício de 2003, um ano ruim para o futebol do Fluminense, que quase terminou em rebaixamento. Mesmo assim, observem que o futebol foi superavitário naquele período, principalmente por conta das negociações de Carlos Alberto e Flávio para o futebol do exterior.

A fonte dos números abaixo é o Relatório de Prestação de Contas 2003, submetido à apreciação do Conselho Deliberativo em 2004.

Exemplos Individuais de Esportes Deficitários em 2003 :

1) Pólo Aquático
Receitas : 7.084, 60
Despesas com Pessoal : 102.366,34
Despesas com Material : 0,00
Despesas Gerais : 32.243,51
Resultado Operacional em 2003 : -127.525,25

2) Basquete
Receitas : 40.242,10
Despesas com Pessoal : 93.540,12
Despesas com Material : 1.556,07
Despesas Gerais : 61.224,32
Resultado Operacional em 2003 : -116.078,41

3) Nado Sincronizado
Receitas : 2.501,70
Despesas com Pessoal : 41.286,77
Despesas com Material : 0,00
Despesas Gerais : 6.048,01
Resultado Operacional em 2003 : - 44.833,08

4) Saltos Ornamentais
Receitas : 3.875,92
Despesas com Pessoal : 43.623,49
Despesas com Material : 126,00
Despesas Gerais : 16.333,04
Resultado Operacional em 2003 : - 56.206,57

Resultado Operacional Consolidado de Todos os Esportes Olímpicos praticados pelo Fluminense em 2003 (Atletismo, Basquete, Natação, Saltos Ornamentais, Tênis, Tênis de Mesa, Tiro ao Alvo, Vôlei, Pólo Aquático, Nado Sincronizado, etc) :

Receita Geral : 1.153.129,00
Despesa Geral : 1.973.515,00
Resultado Operacional em 2003 : - 820.386,00

Resultado Operacional Consolidado do Depto de Futebol em 2003 (incluindo despesas com Xerém e Futsal) :

Receitas : 25.960.321,76
Despesas : 21.189.917,00
Resultado Operacional em 2003 : + 4.770.404,00

Vale à pena ressaltar que o único esporte olímpico superavitário em 2003 foi a Natação (+126.795,98), com receita de 652.462,98 puxada principalmente pelas escolinhas.

A separação financeira do Departamento de Futebol do restante do clube e o maciço investimento em estrutura, principalmente na construção de um centro de treinamentos, são na minha opinião as decisões estratégicas mais importantes que faltam para colocar o Fluminense novamente no nível de excelência do futebol nacional.

Saudações Tricolores !

Danilo Soares Félix

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