O cardiologista Roberto Horcades Figueira, de 57 anos, é candidato da situação à
presidência do Fluminense.
Formado há 34 anos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Horcades é vice-presidente médico do clube desde a primeira
posse de Davi Fischel. É pós-graduado em Oxford, na
Inglaterra, foi diretor do Hospital de Cardiologia das Laranjeiras durante 10
anos, representante do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro durante a gestão
do ministro Adib Jatene (governo FHC), coordenador do SUS no Rio de Janeiro e
diretor do Pró-Cardíaco. Dois nomes já estão escolhidos para sua
diretoria, caso seja eleito: Júlio Domingues, um dos fundadores da antiga
Vanguarda Tricolor, e o atual presidente, David Fischel,
como vice-presidente de Finanças.
Roberto Horcades
foi nadador e tenista pelo Fluminense. “Vou para o sacrifício, porque os três
primeiros nomes indicados pela atual diretoria não puderam ou não aceitaram
disputar a eleição. Mas estou preparado e tenho um grande grupo de amigos e
clientes, advogados e economistas, que vão me ajudar a resolver problemas que
persistem, como a dívida e a necessidade de um estádio e um centro de
treinamento”, diz Horcades. Ele garante que a sede
das Laranjeiras irá se tornar um “museu do futebol e da história do clube”, e
que o Fluminense já tem engatilhado o projeto de construção de um estádio
moderno. Garante ainda uma surpresa para aumentar o patrimônio físico do clube
e transferir o futebol das Laranjeiras.
O doutor Roberto Horcades garante também que seu principal trunfo são as
amizades com tricolores influentes e poderosos, todos seus clientes, e que
participarão, em regime de mutirão, de um grande projeto para impulsionar o
clube. Como sempre, a Sempreflu não emite
juízo sobre o candidato e suas idéias. Apenas expõe o que foi dito para o
julgamento dos torcedores e dos sócios. Vamos à entrevista:
SF – Por que o senhor quer ser candidato a presidente
do Fluminense?
R – Com a proximidade do fim do mandato do presidente Davi
Fischel, ele reuniu seu Conselho Diretor e perguntou
se alguém gostaria de ser candidato. O colegiado indicou então, como primeira
opção, Celso Barros, presidente da Unimed. O Celso declinou, disse que
não poderia dirigir o Flu, porque iria
candidatar-se a um novo período de gestão na Unimed, e não teria tempo para se
dedicar ao clube. O segundo nome escolhido foi o de Júlio Bueno, ex-diretor do Inmetro, da BR-Distribuidora e
atual secretário de Governo do Espírito Santo. Ele também recusou, porque não
poderia afastar-se do cargo que ocupa em outro estado. Houve ainda uma terceira
indicação, de que não me lembro, que também não aceitou. Todos se voltaram,
então, para o meu nome, e eu não pude recusar. Era uma missão. E na minha
chapa, por enquanto, apenas dois nomes são certos:
o Júlio Domingues, um vanguardista de primeira hora, e o presidente Davi Fischel, que será o meu vice-presidente de Finanças, para
que continue o saneamento que iniciou no clube.
SF – O senhor é visto por boa parte dos sócios e
torcedores como um candidato “piscineiro”, sem
ligações com o futebol, sem projetos para o clube.
R – Isso é uma injustiça profunda, e ninguém diz isso na
minha frente. Como não tenho ligações com o futebol? Todo fim de semana
estou no Maracanã, acompanhando o time, torço como um
louco, adoro futebol, e o meu filho Álvaro Figueira é um dos fundadores da
torcida Força Flu. Acho que essa história surgiu em
meu discurso de posse como vice-presidente médico. Eu disse que iria dirigir o Departamento Medico do clube Fluminense, e
não do time de futebol apenas. Tenho o apoio das pessoas realmente envolvidas
com o futebol, como o Carlos Henrique, o Cássio Miranda, de cujo pai fui grande
amigo, do Celso Barros, do Wagner Victer e seu irmão,
do Marcelo Fischel, e de muitos outros.
SF – O Fluminense existe como instituição, é conhecido
no país inteiro, por causa do futebol. O futebol tem que ser a prioridade
absoluta...
R – E vai continuar sendo. Mas preciso explicar o
seguinte: quando o Fischel assumiu o clube e me
convidou para vice médico, não havia mais Departamento
Médico no clube. Estava tudo destruído, sem profissionais, sem equipamentos. O
clube não resistiria a uma visita da Vigilância Sanitária, de qualquer órgão de
fiscalização médica. Seríamos interditados, o clube poderia simplesmente fechar
as portas. Pois fui eu quem montou tudo o que há de moderno no Departamento
Médico hoje. Levei para lá profissionais de alto nível como os doutores Michael
Simoni, Victor Favilla e Luís Gallo,
montei uma estrutura que é a mais moderna dentre os clubes brasileiros e que
talvez só exista no mesmo nível no São Paulo Futebol Clube. Pus dinheiro do meu
bolso, doei equipamentos, e hoje somos modernos e auto-sustentáveis. Todo
exame médico das escolinhas do clube é pago, há renda própria. E o futebol,
claro, se beneficia disso.
SF – Se o Fluminense vender todo o seu patrimônio
físico, não pagará metade da dívida que tem acumulada. A dívida de curto prazo
é tida como inadministrável. Quais os seus planos
para resolver isso?
R – Pode ficar tranqüilo, o Fluminense não vai falir,
quebrar. A instituição é muito grande para que isso aconteça. O que o clube
precisa, agora, é de um grande administrador. E eu sou essa pessoa. Advogados e
economistas de renome vão trabalhar para o Flu em regime
de mutirão para equacionar tudo isso. Todos meus amigos e clientes. Não posso
citar nomes ainda, eu o farei no momento certo. É gente que possui grandes
escritórios de advocacia e gente do mundo financeiro, influente e capaz. Sou
médico e amigo, por exemplo, do Ricardo Teixeira, presidente da CBF, há 32
anos. Quando a CPI do Futebol, do Senado, quis intimá-lo, ele tinha acabado de
sofrer um ataque cardíaco e estava aos meus cuidados. Fui com ele a Cleveland,
nos Estados Unidos, um centro de excelência em medicina do coração. O senador
Geraldo Althoff, que era o relator da CPI, e também é
médico e meu amigo, me telefonou e me disse: “Roberto, por favor, você pode
comprometer seu prestígio profissional se ficar acobertando o Ricardo
Teixeira”. Eu disse a ele: “Senador, não há nenhum acobertamento, nenhuma
fraude. O doutor Ricardo Teixeira teve realmente uma crise cardíaca grave e eu
o estou acompanhando aos Estados Unidos, porque o quadro médico dele é muito
sério”.
SF – Mas o senhor conhece a situação financeira do
clube? O balanço do ano passado, 2003, é de
arrepiar os cabelos de qualquer administrador responsável.
R – Conheço tudo, acompanho tudo de perto. Tenho o apoio
da diretoria e do presidente do Conselho Deliberativo, Milton Mandelblatt. Estou autorizado pelo presidente Davi Fischel a anunciar que vamos construir um estádio de
futebol moderno, um centro de treinamento de primeiro mundo, e um museu nas
Laranjeiras. Não posso dar detalhes ainda, mas já há documentos assinados e nós
vamos tocar os projetos, dar continuidade ao que vem sendo feito. O futebol vai
sar das Laranjeiras e, em uma segunda etapa, será profissionalizado, separado
do restante do clube. Vamos aumentar o patrimônio do clube com o estádio e uma
nova área, mas isso por enquanto é sigilo, porque está em fase de definições,
de ajustes.
SF – O senhor acredita que haja mesmo quatro candidatos
até a eleição?
R – Não acredito. Será preciso haver composições, porque os quatro não conseguirão formar uma chapa com 150
conselheiros. Acredito em duas candidaturas definitivas. O ex-deputado e atual
secretário municipal de Habitação Airton Xerex, por
exemplo, é meu amigo e meu cliente, mas não conhece o clube. Esteve na sede uma
única vez, na posse do David Fischel. Nem ao Maracanã ele vai, não acompanha o time e nem tem
experiência administrativa. Os que o lançaram, foram precipitados, e me acusam
de “filhote do Fischel”, mas só pelas costas. O
Augusto Ramos é um homem sério, mas também não tem história e nem ligações no
clube. E não acredito em milagres, em grupos que vão pôr 78 milhões de euros no clube, como ele anuncia. Ninguém é louco, o
momento do futebol brasileiro não é esse. O fracasso das parcerias do Vasco com
o Bank of América, do Corinthians com a
Hicks Muse, e
do Flamengo e Grêmio com a ISL, mostra que o futebol brasileiro precisa se
estruturar e que ninguém investirá tanto dinheiro em futebol a
curto prazo. É preciso um salto. E se entrar mesmo no clube agora toda
essa massa de dinheiro, as dívidas fiscal e trabalhista consumirão tudo, as
ações judiciais levarão o dinheiro todo, será tudo confiscado. Não haverá
milagres e nem dinheiro caindo do céu.
SF – Mas o próprio presidente Davi Fischel
disse que há uma proposta do Citicorp de injetar
dinheiro no clube, em troca de parcerias nos direitos federativos das
revelações de Xerém...
R - Eu li uma nota sobre isso na coluna do Ancelmo Góis, n’O Globo, mas é uma notícia plantada
por alguém que não sei quem é. O superintendente do Citibank
no Rio de Janeiro é meu amigo, o Eduardo Maia, e ele não tem
nenhuma informação sobre isso. Não há nada disso.
SF – Como, então, obter recursos para o futebol? A
Unimed continuará apoiando o clube?
R – O Celso Barros é meu amigo há 32 anos. Ele me apóia,
mas o compromisso da Unimed com o Fluminense vai só até dezembro, e se o clube
conseguir uma vaga para a Taça Libertadores, a Unimed
nos acompanhará. O resto está em aberto, e temos que voltar a negociar ao final
do contrato. Queremos que a Unimed continue, a parceria inclui um plano de
saúde para todos os jogadores do Fluminense, desde os mirins, em Xerém, até os
profissionais. Nenhum clube do Brasil tem isso, acho que só o São Paulo teve,
por algum tempo, a Amil garantindo seus profissionais. Acho que nem eles têm
mais isso, só o Fluminense.
SF – Vamos insistir: como resolver o problema das dívida fiscal e trabalhista? O Fluminense não pode
vender ninguém para o exterior, porque o Banco Central confisca o dinheiro que
entra por causa da dívida com o Fisco e com a Previdência. O Flu não pode contratar jogadores estrangeiros, porque o
visto de trabalho é negado, também por conta da dívida fiscal. O Paulo Madeira,
por exemplo, não pôde jogar e teve que voltar a Portugal.
R – Tudo isso é conversa fiada. Falam muita coisa que não
é verdadeira. O Paulo Madeira não jogou e foi devolvido porque era ruim de bola
mesmo, não servia para o clube. Não existe nada disso, está tudo bem
encaminhado e nós vamos dar continuidade ao saneamento iniciado pelo Fischel. Pegamos o clube no buraco, na terceira divisão, e
lhe devolvemos o respeito, a credibilidade. Temos feito boas campanhas nos
profissionais e somos imbatíveis nas divisões de base. Xerém é uma realidade.
Quando Fischel assumiu, Xerém tinha apenas um campo,
que era capim puro. Ninguém queria trabalhar lá. Hoje, são sete campos de
treinamento em ótimas condições, instalações modernas, profissionais de
excelente nível e uma estrutura para divisões de base que só outros quatro
clubes no Brasil têm: o São Paulo, o Cruzeiro, o Vitória da Bahia e o Atlético
Paranaense. Ninguém mais.
SF – O senhor fala em profissionalizar o futebol. Quem
será o seu homem para o futebol?
R – Só o futebol, não, vamos profissionalizar tudo. O
marketing, as diretorias especializadas, tudo o que for preciso. Penso em
manter o atual vice de futebol, o Carlos Henrique, que fez um ótimo trabalho em
Xerém e assumiu o futebol profissional há pouco tempo, mas já mostrou que é
competente. É preciso ficar claro que nunca mais seremos uma potência olímpica,
como já fomos. Os tempos mudaram. As empresas preferem montar seus
próprios times de esportes olímpicos, em vez de apoiarem os clubes
tradicionais. Temos, então, que escolher nossas prioridades, escolher em que esportes podemos nos destacar e trabalhar duro, inclusive no
futebol. Organização é a palavra.
___________________________
A Sempre Flu agradece ao Dr. Roberto Horcardes
pela atenção e ao amigo César Motta por mais essa inestimável colaboração.